Mas pode ser que numa rua escondida tu encontre uma amoreira carregada e, se tu for um transeunte inclinado à melancolia, é possível que tu te anime um pouco e siga andando, desistido de fumar o cigarro que te anteciparia a morte, essa lenta celebração. E por ter pensado na morte, vais te perceber vivo, embora velho, as pernas doendo, as coisas se alojando mais facilmente entre teus dentes, e vai te abater a lógica de que é em ti, e não no lugar onde estás, que não há nada a fazer - a cidade não existe, logo, não tem culpa, embora se tivesse uma prainha aqui tu poderia ir ficar melancólico olhando o horizonte, e a areia nos olhos distrairia o tédio. Pior é a falta de graça, não ter governo a criticar, futebol a comentar, dinheiro pra tomar uma coisinha que ajude a drenar a melancolia na privada. Só te resta ser esse chato redator de decisões monocráticas: comprar repolho, em vez de salsicha, ouvir piano, em vez de voz, ficar em casa, em vez de ir, dormir de noite, em vez de sonhar. Mas se sonhar, não psicanalisa. Ser neurótico ou louco, que diferença faz? Se ficar difícil, escreve um livro de auto-ajuda e auto-ajude-se.
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