Na verdade, não houve beijo nenhum. Não na minha frente. Certamente alguém beijou alguém perto daqui, na Redenção, por exemplo. Digamos que um homem beijou outro homem atrás de uma árvore, ou no banheiro da Redenção mesmo, sabe como são essas coisas. E eu nem sei por que me atrevo a dar notícias de Porto Alegre, sendo que eu não conheço nada dessa cidade, nada de interessante. Porque deve haver coisas interessantes por aqui. Esse Ateliê Livre deve ser muito afudê, seja ele o que for. Tenho preguiça pra descobrir. Minha Porto Alegre é basicamente da Bento Gonçalves até o Gazômetro, mas raramente eu vou até o Gazômetro, então posso dizer que minha Porto Alegre vai da Bento até a Santana, onde tem uma pracinha bacana, cheia de ambulâncias estacionadas, ambulâncias e microônibus de cidades do interior com nomes curiosos como Não me toque, Putinga, Rolante, etc. Aliás, essa é a minha primeira lembrança de Porto Alegre: ambulâncias. Mais precisamente, ambulâncias na Santa Casa, hospital do câncer, onde as pessoas do interior vêm morrer. É foda isso: quando diziam pra gente lá no interior que alguém ia pra Porto Alegre, a gente sabia que essa pessoa ia morrer. O Sergio Faraco fala disso num conto, acho que é sobre um bebê, um bebê que atravessa o estado (esse estado enorme e vazio que no mapa parece menor que um cocozinho de ovelha) pra morrer em Porto Alegre. Buuuuuuuuu. Tem outro conto do Sergio Faraco que é sobre um rapazinho que vem pra Porto Alegre viver com um tia professora de latim, essa coisa sexy, fantasia de todo rapaz cristão do interior. Ele um dia vê a tia tomando banho e ela percebe que ele viu ela, aí ela pega e vai na cama dele de noite e diz "Tá na hora de tu aprender essas coisas", e dá pra ele. Uhu! Incesto em Porto Alegre. Tem outro do Faraco que é Dançar tango em Porto Alegre, mas se não me engano ninguém dança nada com ninguém em Porto Alegre, muito menos tango, onde já se viu, tango é o cu do cachorro, o conto todo é uma viagem de trem (ah, a época dos trens...) onde uma mulher dá prum cara por puro tédio. Acho que é isso. Tédio. Isso é algo que os porto-alegrenses entendem bem: tédio.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
29 de setembro de 2010, depois
Ah, mas hoje é um belo dia de sol e calor. Tem até vento pra refrescar. Eu se fosse tu teria tomado umas cervejas de manhã, antes e depois do almoço. Eu se fosse tu não teria nem almoçado, não teria nem ido trabalhar. Tá certo que não tem nada pra fazer nessa cidade, não tem praia, o rio Guaíba não presta, o jeito é ficar em casa vendo tv ou lendo, sei lá o que se pode fazer numa cidade sem praia. O importante era ter vagabundeado por aí, e se tu, porto-alegrense, não vagabundeou por aí, é uma pena, pois a cidade perdeu muito com isso - se nada acontece aqui é porque a gente não faz porra nenhuma. Mas o que é acontecer? Não gosto dos jornais. Eles pegam assassinatos e outras sacanagens e expõem isso como se importasse pra todo mundo. Agora mesmo tem um filho da puta matando um corno, mas e daí? Um dia o filho da puta (ou o corno) pode ser tu, e aí vai ser interessante pra ti o acontecimento, mas que que o resto da população tem a ver com isso? Claro, ninguém é obrigado a ler jornal, ninguém é obrigado a nada (e agora, o que fazer?), mas que é um saco é um saco, o absurdo é inesgotavelmente um saco. Ah, acaba de chegar uma notícia aqui na redação: 50 anos do ateliê livre. Não sei o que é isso (a Cris Cubas que me mandou um e-mail com a manchete), mas é só tu digitar "atelie livre" no google que cai direto no site com maiores informações. Internet é uma maravilha. Porto Alegre é uma maravilha, mas a gente tem que tá bêbado pra notar. Enfim, notícia é aquilo que a gente nota, e nesse momento, aqui do canto, eu noto um rapaz carregando uma jaqueta. É que ele saiu de casa quando ainda fazia frio e agora o coitado está tendo que carregar a porra da jaqueta nesse calor. Do lado dele tem uma morena de roxo (ou lilás, ou violeta) e as morenas ficam sempre muito bem de roxo, lilás, violeta. Ela está usando meias roxas também e ficou legal a combinação. Isso, morena, ri. O cara da jaqueta ri também e os dois se beijam. Muito bem. Belo acontecimento. Um beijo terno em Porto Alegre, às 12 e 13.
29 de setembro de 2010
Como é comum por aqui, nada de grandiosamente interessante aconteceu. Quer dizer, ninguém importante (atualmente importante, tipo um político ou artista famoso rico) morreu, ninguém que mereça um post em homenagem. Diz que o Paul McCartney vai fazer um show por aqui em novembro, mas é só em novembro e não é certo que ele vá morrer. Até lá vai acontecer muita coisa, quer dizer, essas coisas que acontecem em Porto Alegre, como uma greve dos bancos (uma greve nacional dos bancos, essas coisas que acontecem em qualquer cidadezinha e, portanto, também em Porto Alegre, embora eu não esteja dizendo que Porto Alegre seja uma cidadezinha qualquer, embora seja, mas isso é segredo de quem mora aqui, quer dizer, tem dias em que as pessoas que moram aqui pensam - ou percebem, não sei, nos dias em que a gente pensa/percebe que isso aqui é uma cidadezinha isso aqui é uma cidadezinha, capisci? - pensam, eu dizia, pensam/percebem que isso aqui é uma cidadezinha. Bom. Era um parêntesis. Isso era pra ser jornalismo. Eu tava falando de Porto Alegre e das coisas que acontecem aqui. É. Isso. Continuo depois do fim dos parêntesis). Muitas coisas acontecem por aqui. Coisas irrelevantes, nada de grandiosamente dramático, embora os dramas de cada porto-alegrense sejam grandiosos e gloriosos. Basta olhar uma esquininha qualquer, uma repartição pública qualquer, um qualquer qualquer. Aqui vivem muitas das melhores e mais belas mulheres do planeta, por exemplo, e cada gesto efêmero de cada uma dessas mulheres é certamente um grande acontecimento. Acontecem também falcatruas, coisas que envolvem dinheiro ou falta de dinheiro, e acontecem também poesias e as árvores também por aqui florecem (por exemplo os manacás, também chamadas pretensiosamente de primaveras, essas florzinhas roxas e brancas que perfumam ruas pouco movimentadas, em Porto Alegre existem muitos manacás e cada broto é um acontecimento notável, amanhã postarei fotos, sim, isso é importante para o jornalismo, as fotos), e além das árvores tem as pessoas, que brotam dos lugares mais inimagináveis, e cada uma usando uma roupa diferente da outra, formando assim um imenso desfile por corredores e faixas de segurança. E é claro que pessoas nascem, crescem, se reproduzem e morrem, e agora mesmo eu sou capaz de ver um pintor de paredes dando em cima de uma faxineira, e se deus quiser eles vão fazer amor e daí podem surgir outros seres ou não, o importante é que tenham prazer. Ouviu, seu pintor de paredes, trata de dar prazer à faxineira. Mas nem só de pintores de parede e faxineiras é feita esta Porto Alegre. Tem de tudo aqui e eu espero rabiscar referências a pelo menos um sexto do todo, ok? Tem o Grêmio e o Inter, por exemplo, e quantos porto-alegrenses não suportam a vida porto-alegrense simplesmente por causa do Inter e do Grêmio? Vejam bem: "não suportam", na frase acima, quer dizer "suportam". Esses mistérios da língua portuguesa, tão desprezada língua. E é isso, basicamente, o que aconteceu até o momento (11hs e 20min), em Porto Alegre.
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