quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Como sair de Porto Alegre

Primeiro, certifique-se de que você está em Porto Alegre. A maneira mais segura de fazê-lo é observar os táxis: se você não conseguir decidir se aquilo é laranja ou vermelho, você está em Porto Alegre. Outra maneira é observar as mulheres: se você avistar mais de vinte  e duas gostosas por minuto, você está em Porto Alegre. Mas não recomendamos esse método ao amigo porque, se a ideia é sair daqui, ao perceber as gatinhas, você vai acabar ficando, iludido por possibilidades matemáticas. Para não correr riscos, tenha sempre em mente que as mulheres bonitas não são pro teu bico porque, se fossem, você namoraria pelo menos uma, e nesse caso não pensaria em sair da cidade, a não ser que esse fosse o plano de vocês dois, irem ser um casal em um lugar melhor.

Segundo: despeça-se dos seus dois amigos. Mande um e-mail para o primeiro e vá na casa do segundo, portando meia garrafa de vodka barata. Brinde ao passado e convide o amigo para ir junto. Quando ele disser que não vai, faça um brinde ao futuro e, logo que se instalar o silêncio, vá embora pra sua, em breve, ex-casa. 

Terceiro: faça uma mala pequena. Leve de Porto Alegre apenas o necessário, que é pouco, você sabe. Se não soubesse, não estaria pensando em sair de Porto Alegre, cidade de fetiches afetados e supérfluos superlativos.

Quarto: faça um passeio pela parte da cidade que você mais ou menos gosta. Escolha uma parede, um carro ou uma árvore e dê uma boa mijada.

Quinto: jogue seu celular no Arroio Dilúvio.

Sexto: pegue um avião, de preferência para fora do país. Ir morar em Canoas, Caxias ou São Borja não se caracteriza como sair de Porto Alegre. Se você for para o Rio de Janeiro ou qualquer lugar pior do que Porto Alegre, vá de ônibus. Se você for para o Nordeste, pegue carona com caminhoneiros. Mas o ideal mesmo é ter uma motor-home e ficar zanzando pelas Américas com seu espírito de lesma.

Sétimo: treine o "você", especialmente na escrita. Porém, quando for conversar com alguma brasileira não-gaúcha, use o "tu" - pode ser a única diferença entre você e os outros imbecis que a cortejam. 

Oitavo: quando, já longe de Porto Alegre, você ouvir alguma canção gaudéria, fique emocionado, desfrutando sua capacidade de perdoar a tosquice do passado - nada de sentir aquele nojo irritado que te acometia quando você vivia aqui.

Nono: curta os climas e paisagens fora da bolha Porto Alegre e perceba que sim, outro mundo é possível.

Décimo: eventualmente, volte e veja que tudo continua sem graça, e piorando.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Como continuar em Porto Alegre

Querer estar em outro lugar é apenas uma maneira de curtir o aqui agora. Eu podia começar assim meu livrinho de auto-ajuda, e podia terminá-lo por aí mesmo. Mas que que eu to falando? Aí é que tá: eu não estou falando. Escrever dá uma cara fechada às ideias, fico parecendo um empoeirado professor de latim, curvado sob a sobrecasaca, pentelhos brotando da orelha, mas na real eu to aqui de bermuda, tomando uma batida de energético, e em latim eu só entendo "felatio" e "culiningus". Mas ok, digamos que a tese é esta: para aguentar Porto Alegre, é preciso ser um velho precoce. É mais provável, porém, que eu seja um velho desde antes de ter nascido (como diz aquela música dos Replicantes sobre o Chico Buarque, que de velho só tem a carcaça, aliás, visto que circula por aí há quase um século com uma destreza de dar inveja a Cínicus, o pai bastardo do cinismo). Portanto, e esse portanto é só pra dar um efeito, a velhice é um estado de espírito, natural como o espírito de porco (originado nos homens, mas aplicável também às damas discípulas de Cínicus) e o espírito de galinha (de origem e aplicação unissex). Observe-se que os estados de espírito supracitados servem ao objetivo sacana de reagir ao absurdo geral, na intenção de preservar a geleia individual (ego) da maligna contaminação a que a realidade nos condena, logo que a cegoinha de papai coloca a sementinha de ti na cesta básica de mamãe, MAS o que acaba sempre acontecendo é que qualquer estado de espírito (como as palmadas bem intencionadas de papai e mamãe), no fruqui-fruqui da ação-reação, desperta e amplia o mal existente no ínfimo de cada um, e é por isso, senhoras e senhores, que este mundo é a bosta que é. Mas "bosta" é só um modo de dizer. Outras maneiras são "merda", "titica" e, sobretudo, "número 2". Seja criativo, não morra de tédio por falta de sarcasmo. Sarcasmo, aliás, é outra coisa que ajuda muito quando não se tem grana pra sair de Porto Alegre e ir ser porto-alegrense em outro lugar. Sarcasmo ajuda mais ainda quando não se tem nem grana, nem coragem para ir pra outro lugar correr o risco de ingerir líquidos pela porta de trás, se é que me entendem. "Mas meu filho, pra que tanto rancor?", pergunta a mãe que às vezes sou pra mim mesmo. É só um estilo, mamãe. Um estado de espírito necessário à escrita. E como continuar em Porto Alegre sem escrever? Mas nem só de rancor vive um texto. Por isso às vezes escrevo pitangas, amoras e loas ao Arroio Dilúvio, que escorre caldalento entre as pernas da Ipiranga, levando embora nossas borras privadas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Segunda-feira

Mas pode ser que numa rua escondida tu encontre uma amoreira carregada e, se tu for um transeunte inclinado à melancolia, é possível que tu te anime um pouco e siga andando, desistido de fumar o cigarro que te anteciparia a morte, essa lenta celebração. E por ter pensado na morte, vais te perceber vivo, embora velho, as pernas doendo, as coisas se alojando mais facilmente entre teus dentes, e vai te abater a lógica de que é em ti, e não no lugar onde estás, que não há nada a fazer - a cidade não existe, logo, não tem culpa, embora se tivesse uma prainha aqui tu poderia ir ficar melancólico olhando o horizonte, e a areia nos olhos distrairia o tédio. Pior é a falta de graça, não ter governo a criticar, futebol a comentar, dinheiro pra tomar uma coisinha que ajude a drenar a melancolia na privada. Só te resta ser esse chato redator de decisões monocráticas: comprar repolho, em vez de salsicha, ouvir piano, em vez de voz, ficar em casa, em vez de ir, dormir de noite, em vez de sonhar. Mas se sonhar, não psicanalisa. Ser neurótico ou louco, que diferença faz? Se ficar difícil, escreve um livro de auto-ajuda e auto-ajude-se.