Querer estar em outro lugar é apenas uma maneira de curtir o aqui agora. Eu podia começar assim meu livrinho de auto-ajuda, e podia terminá-lo por aí mesmo. Mas que que eu to falando? Aí é que tá: eu não estou falando. Escrever dá uma cara fechada às ideias, fico parecendo um empoeirado professor de latim, curvado sob a sobrecasaca, pentelhos brotando da orelha, mas na real eu to aqui de bermuda, tomando uma batida de energético, e em latim eu só entendo "felatio" e "culiningus". Mas ok, digamos que a tese é esta: para aguentar Porto Alegre, é preciso ser um velho precoce. É mais provável, porém, que eu seja um velho desde antes de ter nascido (como diz aquela música dos Replicantes sobre o Chico Buarque, que de velho só tem a carcaça, aliás, visto que circula por aí há quase um século com uma destreza de dar inveja a Cínicus, o pai bastardo do cinismo). Portanto, e esse portanto é só pra dar um efeito, a velhice é um estado de espírito, natural como o espírito de porco (originado nos homens, mas aplicável também às damas discípulas de Cínicus) e o espírito de galinha (de origem e aplicação unissex). Observe-se que os estados de espírito supracitados servem ao objetivo sacana de reagir ao absurdo geral, na intenção de preservar a geleia individual (ego) da maligna contaminação a que a realidade nos condena, logo que a cegoinha de papai coloca a sementinha de ti na cesta básica de mamãe, MAS o que acaba sempre acontecendo é que qualquer estado de espírito (como as palmadas bem intencionadas de papai e mamãe), no fruqui-fruqui da ação-reação, desperta e amplia o mal existente no ínfimo de cada um, e é por isso, senhoras e senhores, que este mundo é a bosta que é. Mas "bosta" é só um modo de dizer. Outras maneiras são "merda", "titica" e, sobretudo, "número 2". Seja criativo, não morra de tédio por falta de sarcasmo. Sarcasmo, aliás, é outra coisa que ajuda muito quando não se tem grana pra sair de Porto Alegre e ir ser porto-alegrense em outro lugar. Sarcasmo ajuda mais ainda quando não se tem nem grana, nem coragem para ir pra outro lugar correr o risco de ingerir líquidos pela porta de trás, se é que me entendem. "Mas meu filho, pra que tanto rancor?", pergunta a mãe que às vezes sou pra mim mesmo. É só um estilo, mamãe. Um estado de espírito necessário à escrita. E como continuar em Porto Alegre sem escrever? Mas nem só de rancor vive um texto. Por isso às vezes escrevo pitangas, amoras e loas ao Arroio Dilúvio, que escorre caldalento entre as pernas da Ipiranga, levando embora nossas borras privadas.
Oh, meu, engraçado que Porto Alegre às vezes seja tão inspiradora de estado de espírito de Barco Triste, né?
ResponderExcluirÉ a presença carcomida daqueles fantasmas que a gente vê quando chega aqui pela rodoviária, mano.
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